
Bom dia, irmão Henrique.
Recentemente soube que você pretende me procurar. Refleti bastante se isso seria conveniente e qual seria o real interesse em estar perto de mim agora, buscando entender o que teria mudado em sua atitude perante minha pessoa. Prezo, acima de tudo, pela paz e pela transparência absoluta, e saiba que estou aberto ao diálogo, desde que o propósito seja construir uma amizade pautada na honra, na dignidade e na verdade.
Para que esse encontro ocorra de forma produtiva, preparei uma reflexão documentada exclusiva para você, que traz luz aos fatos e esclarece o tom da caminhada que nós dois devemos seguir daqui em diante. Se sua intenção for realmente pautada na postura de um homem de bem, eu lhe enviarei esse conteúdo para que você tome conhecimento antes de nos falarmos pessoalmente. Após você ponderar sobre esse conteúdo, e havendo entendimento sincero e compromisso fiel, quem sabe poderemos, enfim, nutrir respeito, amizade verdadeira pautada em amor de irmãos, perdão e recomeço.
Como você deseja conduzir isso?
Atenciosamente,
Ricardo
### O Convite para o Encontro Definitivo
Henrique, para o caso de a reconstrução de nossos laços parecer um fardo pesado demais — e sei que é — ou se o convívio familiar soar como uma nota dissonante em nossa jornada, quero que saiba que a vida nos oferece caminhos de luz além da convivência cotidiana. Se o amor não encontra solo para florescer no dia a dia, talvez possamos nos permitir apenas um único entardecer suspenso no tempo, com início, meio e fim. Um momento despojado de toda futilidade e do ouro passageiro, onde nossas essências se encontrem a sós para resgatar o que houve de bom e alinhar nossas almas ainda neste plano, permitindo que o perdão sele nossa despedida neste ciclo de vida.
EU NÃO SOU PRISIONEIRO DO MEU PASSADO, EU SOU CRIADOR CONCIENTE DE MINHA ETERNIDADE
Somos viajantes imortais em uma breve experiência material; quem sabe se, nesse espaço de honestidade, não conseguiremos desatar nós que nos prendem há muitas existências? Proponho que nos perdoemos para, então, nos despedirmos com a serenidade de quem cumpriu uma etapa. Que fique claro: este seria o nosso último entardecer juntos neste plano, um momento final de pacificação e entrega mútua, para que o nosso próximo reencontro ocorra apenas na eternidade, onde a luz já terá purificado todas as sombras e não haverá mais necessidade de retornarmos aos mesmos erros.
Prezado irmão Henrique,
Escrevo com o coração despido de armaduras, buscando a voz do Ricardo que corria ao seu lado na infância. Antes de homens, somos filhos do mesmo ventre. Escrevo guiado pelo preceito de Cristo, que nos ensinou a perdoar setenta vezes sete, pois a paz só floresce onde a misericórdia vence o orgulho. Este amor é o que me move agora; ele é grande demais para aceitar o silêncio ou a meia verdade..
Quero lhe estender a mão irmão, mas para que nosso abraço seja real, precisamos caminhar juntos pelo jardim da nossa história, reconhecendo onde as flores cresceram e onde os espinhos nos feriram.
Não existe perdão real onde resta a mentira ou o silêncio sobre os fatos. Antes de vislumbrarmos um novo horizonte, é imperativo encararmos a nossa realidade de frente. A minha segurança vem da transparência, e o meu propósito é que o amor de irmãos encontre, finalmente, um terreno honesto para florescer..
Na última vez que nos falamos, quando você me procurou em minha casa e eu o convidei para caminhar aqui na praia, no Morro Branco, percebi com tristeza que sua memória estava seletiva, guardando apenas o que lhe convinha. Para que o seu “eu verdadeiro” possa reencontrar o meu, decidi trazer à luz alguns dos fatos concretos da nossa rápida jornada. Faço isso não para ferir, mas para despertar em você a consciência necessária para a nossa cura.
Minha lealdade e meu amparo para com você foram longos e constantes. Trago aqui estes episódios para deixar registrado, e para despertar o seu conhecimento, que, durante nossa caminhada, eu, seu irmão mais novo, estive presente em diversas ocasiões em que você mais precisou.

Um Braço de Apoio nas Horas de Necessidade
Recordo primeiramente, do período em que você morava em Brasília. Naquela época, os pedidos de socorro vinham através de cartas pelos Correios, e eu nunca hesitei: realizei inúmeros envios de recursos financeiros nos momentos de sua maior urgência. Você recorda das cartas e dos recursos que eu enviava, lembra de algo mano?
Em outro momento você não tinha onde morar, eu lhe estendi a mão e cedi um espaço para que você residisse pelo tempo que fosse necessário, uma kit situada atrás da Unifor, lhe ajudou em algo irmão, consegue lembrar com gratidão deste fato, mano?
Anos mais tarde, quando novamente o desamparo bateu à sua porta e você não tinha onde morar, trouxe você par minha casa na Rua Carlos Vasconcelos. Além da moradia, viabilizei um trabalho para você junto aos meus negócios de estamparia de camisas; você é capaz de lembrar com gratidão, irmão?
Houve também um gesto de profunda responsabilidade e zelo: o registro de seu filho em cartório. Assumi a paternidade legal de Lucas Henrique em um ato de puro amor e proteção, pois o menino precisava viajar para Mossoró/RN com a mãe e o embarque era impedido pela falta de documentos, enquanto você residia no Rio de Janeiro. Dei a ele o seu próprio nome com todo o respeito; você é capaz de reconhecer dignidade neste gesto, mano? Já parou para pensar que seu nome foi preservado pelo amor e respeito que sempre tive por você? Nunca pretendi usurpar o infante; o registrei com o seu nome, “Henrique”. Mano, você consegue entender a grandeza neste ato?
Fui eu, ainda, movido por um profundo desejo de ver sua felicidade e estabilidade, quem o incentivou a dar o passo da união e do amor ao se casar com a Aline, para que vocês pudessem edificar o próprio lar, conduzir suas finanças com independência e florescer em sua própria família, deixando para trás a dependência de nossa mãe. Fiz isso porque acreditava na beleza da sua caminhada e queria que você experimentasse a dignidade de ser o senhor do seu destino ao lado de quem escolheu; você é capaz de recordar com carinho desse meu apoio à sua felicidade, meu irmão?
No campo profissional, que é o alicerce da sua realidade de hoje, eu estive presente em seus passos iniciais, executando de forma gratuita a reabilitação de inúmeras empresas antigas com CNPJs inativos que você me trazia, um trabalho técnico que permitiu que você resgatasse patrimônios e recebesse rendimentos fundamentais para sua subsistência na época; eu jamais aceitei nada por esse serviço, pois via no seu progresso a minha satisfação como irmão.
Quando você iniciou o trabalho com a Nordeste, seu escritório se limitava a um pequeno quarto lá no Barroso, próximo ao Castelão e, em um gesto de puro amor e amizade, lhe cedi um equipamento completo, um computador 286 junto com uma impressora, para que você pudesse ter a dignidade de um espaço de trabalho próprio. Fui pessoalmente instalar tudo e ainda guardo na memória a sua felicidade ao poder, enfim, elaborar seus documentos com autonomia. Por isso pergunto, com o coração aberto: esse suporte no momento em que você mais precisava de uma base foi útil para você se tornar quem é hoje? Você é capaz de recordar com gratidão de quem o ajudou a regar suas primeiras sementes do seu trabalho, mano?

Reconhecer a Verdade, Primeiro Passo do Arrependimento
Meu irmão, é com um peso na alma, mas com a convicção de que a dignidade liberta, que trago agora o contraste doloroso dessa nossa jornada. Faço isso não por amargura, mas porque a sua memória seletiva parece ter ignorado os danos e o sofrimento que se projetaram sobre mim ao longo do tempo. Para que o nosso reencontro seja fundamentado na luz, é preciso que você também reconheça onde a sua mão feriu quem apenas desejava o seu bem. Trago estes fatos como em um espelho, na esperança sincera de que o reconhecimento do erro abra caminho para um arrependimento genuíno e para a paz que só o perdão real pode selar.
Você se recorda de quando insistiu para que eu emprestasse minha moto CB400 ao nosso outro irmão, sob o pretexto de um simples passeio com a namorada? Você insistiu até me convencer, mas a verdade apareceu logo: era uma trama. Você seguiu na garupa e ambos sumiram por semanas, devolvendo a moto com o motor destruído por falta de óleo, motivo pelo qual a vendi na época . Trago isso agora porque esse episódio, embora antigo, talvez explique um pouco o por que a distância entre nós se tornou tão grande. Ali você deu início um padrão que ignorou a verdade, respeito e amor que todos nós merecíamos. Você se lembra disso, irmão?
Você se recorda das duas ocasiões em que, durante a madrugada, colocou um canivete em minha garganta? Isso ocorreu em Morro Branco, na casa de nossa família. Lembra dessas infelizes ocorrências, você realmente queria tirar minha vida mano?
Você recorda das duas vezes em que tentou suicídio e, em ambas, eu estava lá para lhe socorrer e buscar ajuda? Talvez não se lembre por estar desfalecido, mas eu fui um dos que fiquei ao seu lado, irmão.
Houve um episódio que marcou negativamente o início da minha trajetória no Turismo. Você residia na mesma casa onde outrora era a estamparia, eu organizava uma excursão inaugural ao Paraguai. No momento exato em que o ônibus estacionou e os cinquenta passageiros, junto a seus familiares, se reuniam para o embarque e as despedidas, você surgiu com uma desfaçatez inacreditável: subiu no muro, bem em frente à porta do veículo, e acendeu um baseado de maconha diante de todos. Foi um ato deliberado que feriu a minha credibilidade profissional perante meus clientes, justamente quando eu empenhava todo o meu sonho para consolidar um novo negócio. O que o levava a querer manchar a minha reputação em um momento tão solene para o meu trabalho? Você é capaz de reconhecer o dano que causou ali, mano?
Houve momentos em que sua conduta cruzou fronteiras que a dignidade deveria ter protegido. Você se recorda das tentativas de se aproximar da Valéria? Ela, em sua integridade, partilhava comigo cada movimento seu. Trago isso à luz porque essa postura não foi honrosa e tampouco digna de um irmão; foi com esse tipo de atitude que a confiança e a amizade foram sendo afastadas, pouco a pouco, sob o peso de escolhas que ignoraram o respeito que nos unia. Você consegue se lembrar disso, irmão?
Passados alguns anos, enquanto eu lutava com todas as minhas forças para recomeçar a vida, vivi um momento de extrema urgência: era o último dia para o pagamento da minha matrícula na Unifor e eu precisava de ajuda financeira para não perder o semestre. Fui ao trabalho do Tio Cleto em busca de socorro, mas você estava na porta e, com uma frieza que me marcou, sequer me deixou entrar; disse que faculdade era besteira e que o tio estava ocupado demais para me receber. Saí dali com o peso da decepção e a tristeza de ver meu próprio irmão impedir o meu acesso a uma chance de futuro. Lembra desse dia e da importância do que estava em jogo para mim, mano?
Outra vez, caminhávamos pela Aldeota quando o destino colocou em nosso caminho o proprietário da fábrica de jeans Destak. Diante de nós, ele manifestou a necessidade de um contador e, reconhecendo minha prontidão, convidou me para o cargo ali mesmo. Foi então que recebi um balde de água fria: na minha frente, você interpelou a oferta, dizendo que arranjaria outro profissional e insistiu para que ele não me contratasse. Eu era um jovem recém formado, lutando para recomeçar a vida e precisando desesperadamente daquela oportunidade para me sustentar, mas você agiu deliberadamente para fechar a porta que se abria de forma tão legítima. Por que impedir o pão na mesa do seu próprio sangue? Você consegue recordar deste fato irmão?
Henrique, recordo me com profunda tristeza de um episódio que marcou o período do meu divórcio com a Ana Karolina, em João Pessoa. Ela me confidenciou, tempos depois, que você a procurou em uma visita única com o propósito deliberado de me difamar durante horas, um ato que gostaria que você compreendesse de forma clara: quando um irmão usa sua voz para minar a imagem do outro perante sua própria família em um momento de fragilidade, ele não ataca apenas o indivíduo, mas fere a estrutura do que é sagrado entre nós, gerando repercussões que podem ecoar por uma eternidade e causando um mal difícil de mensurar à harmonia do nosso sangue e ao legado de nossa família. Você consegue ter a consciência do impacto que essa ação teve e consegue lembrar desse dia, mano?
Henrique, tempos depois, chegando ao meu prédio na Rua Ana Bilhar, fui avisado pelo porteiro de que você havia entrado em meu apartamento. Ao chegar, o encontrei sentado ao chão, de cigarro em punho, proferindo asneiras à Maria do Socorro, mãe do meu primogênito, em um diálogo impensado que causou danos profundos ao semear a discórdia em meu lar, sendo esse um dos estopins que me levaram a um novo divórcio e que a influenciou a me perseguir juridicamente por longos anos. Gostaria que você refletisse sobre o peso de invadir a intimidade de um irmão para plantar dúvidas e conflitos, pois esse gesto não feriu apenas a mim, mas desestabilizou a vida de todos os que dependiam daquele equilíbrio familiar. Você consegue recordar a gravidade dessa sua atitude, mano?
Henrique, recordo ainda de quando conversas maldosas sobre mim começaram a circular pelo Morro Branco e, ao apurar a origem, descobri com profunda decepção que vinham de Lucas, seu filho — o mesmo que eu, em um ato de puro amor, registrei como pai para protegê lo. Ao interpelá lo, ele me revelou que apenas repetia o que ouvira de você e, quando o questionei, você afirmou que fez aquilo para “dar uma lição de moral” no menino. Gostaria que você refletisse sobre o paradoxo de difamar o próprio irmão, que sempre lhe estendeu a mão, sob o pretexto de educar um filho, pois ao agir assim, você não apenas feriu o meu nome, mas ensinou ao Lucas que os laços de sangue e a gratidão podem ser sacrificados em nome de uma lição distorcida. Você consegue lembrar dessa ação e perceber o quanto ela foi injusta com quem tanto cuidou de vocês, mano?
Irmão, e agora bem recente, tenho observado de forma analítica um padrão que transcende a coincidência: a maneira sistemática como meus amigos evaporam do meu convívio para, logo em seguida, ressurgirem ao seu lado. Esse movimento de capturar meus vínculos revela uma busca por validação através do espelhamento, como se ao apropriar se das minhas relações, você tentasse absorver a essência do que eu sou. Esse “sequestro social” indica uma psique que tenta isolar o irmão para ocupar um palco que não lhe pertence, tentando preencher o próprio vazio com o que é meu. Gostaria que você refletisse sobre o que motiva esse gatilho de posse, pois esse comportamento diz muito sobre sua carência de identidade; você consegue identificar essa natureza predatória em suas ações ou ainda acredita que esse padrão seja acidental irmão?
Henrique, quando caminhamos no Morro Branco, você me falou com orgulho sobre a estabilidade de residir no mesmo lugar há dez anos e citou que figuras como Dr. Djacir Figueiredo e o empresário Deusmar Queiroz o admiram pela sua inteligência e honestidade. No entanto, essa trilogia de “segurança, inteligência e honestidade” que você apresenta ao mundo, para mim, seu irmão mais novo, ainda carece de valor real, pois o seu caminhar ao meu lado sempre projetou uma distorção inadequada. É doloroso perceber que a retidão que você utiliza para com os outros nunca foi aplicada à nossa relação, onde você muitas vezes se comportou como um algoz, permitindo que uma inveja silenciosa da minha felicidade e das minhas conquistas, por menores que fossem, impedisse você de celebrar comigo como um verdadeiro irmão.
Eu sinceramente acredito que você possua bondade em seu interior, mas para que essa sua “trilogia” de virtudes seja plena e verdadeira perante o Criador, ela precisa primeiro se manifestar na reparação e na verdade com o seu próprio sangue. Você consegue refletir sobre essa dualidade entre quem você diz ser para o mundo e quem você tem sido para mim, mano?

Quando a Mão do Irmão Abre a Porta ao Desconhecido
Irmão, nosso falecido pai trabalhava em sua empresa “Nordeste”, e certa vez ele me relatou que, ao ligar o computador no trabalho, encontrou o registro de um furto à minha pessoa. Tratava-se de um documento fraudulento onde determinado individuo estranho a família, se apropriava indevidamente de todo meu investimento que já estava contratado aos seus cuidados e de sua empresa. Oportunamente vocês providenciaram reconhecimento de firma com data retroativa em cartório e, depois de toda a fraude aprovada pela diretoria, você autorizou o envio para o advogado de sua empresa no DF.
Em conversa posterior com este advogado, ele abriu a gaveta de sua mesa, retirou tal documento fraudulento e me mostrou, falando que Henrique o havia solicitado, que ele inserisse no processo. Ele somente não o fez por motivos óbvios: tratava se de um embuste à plena luz do dia. Neste meio tempo, outro advogado seu, este já em Fortaleza, me avisou que eu tinha que pagar uma vultosa quantia em dinheiro, chegava a quase 40% de todo valor investido, para que eu pudesse tomar posse novamente de tais investimentos. Eu assim o fiz, levei em dinheiro. Depois disso fui forçado novamente pelo mesmo advogado a entregar mais recursos, desta vez provenientes de serviços que eu havia executado, elevando ainda mais o vexame e o prejuízo.
Quer dizer, fui furtado com a sua anuência, ou melhor, com o seu consentimento e sua estrutura toda favorável para uma pessoa estranha à família. Tal delinquente usou sua estrutura, seus advogados e sua concordância. Ainda hoje não soube quem levou toda a grana do furto: se foi somente para o delinquente ou dividido em partes iguais.
Quando você teve novamente a oportunidade de atentar contra mim, desta vez não comigo ou com minha família, desta vez financeiramente, você o fez; valendo-se de estratagemas institucionais. Agiu de forma deliberada, deixando para trás o que se configura como uma fraude manifesta, um rastro de ilicitudes que é, juridicamente, constrangedor. No entanto, não evoco esses termos para puni-lo, mas para que possamos olhar a verdade de frente. Você reconhece a gravidade e o dolo dessas ações? Acredito que você possui a grandeza necessária para admitir esses pontos e buscar uma composição a reparação dos danos.
Pergunto-lhe, com o coração aberto: você teria a hombridade de transformar esse erro em um marco de justiça entre nós, permitindo que isso seja o primeiro passo para a verdade, mano?

Meu irmão Henrique, me aponte o Grande Mal que lhe Fiz?
Ao longo da minha vida, lhe estendi a mão em inúmeras oportunidades, sempre movido por amor e boa vontade. É com profundo pesar que constato ter recebido, em troca, um misto de sentimentos que feriram minha alma: mentiras, calúnias, a destruição de meus casamentos e o furto quando lhe foi oportuno.
Hoje, quando você me procura, sou forçado a me perguntar: o que meu irmão Henrique quer de mim agora? Receberei um beijo no rosto para ser traído logo em seguida? Gostaria de acreditar que o tempo e os cabelos brancos trouxeram também a você, a nobreza, a temperança e a hombridade.
Irmão, vou lhe fazer a pergunta que trará a resposta definitiva para tudo isso:
“Me fale qual o grande mal que eu lhe fiz nesta vida?”
Me aponte este mal. Se ele existiu, eu preciso conhecer para me retratar e fazer um pedido de desculpas em alto e bom som, para que os quatro cantos do mundo possam ouvir. No entanto, caso você não consiga nomear esse mal, precisará reconhecer que a origem desse conflito não está em minhas ações, mas no que habita em seu próprio interior.

Honrar o meu nome é, em essência, honrar o seu.
Lembre se, mano: carregamos o mesmo sobrenome, o mesmo sangue e a honra dos que vieram antes de nós. Honrar o meu nome é, em essência, honrar o seu; não existe grandeza em diminuir aquele que compartilha a sua própria identidade.
Meu irmão, expor essas feridas não é um exercício de vingança, mas um profundo ato de esperança. Aquele laço puro que nos unia na meninice ainda me faz acreditar que a redenção é possível; no entanto, ela só pode nascer do reconhecimento honesto de quem fomos e do que fizemos um ao outro.
Não escrevo para mantê-lo acorrentado ao passado, mas para libertar o nosso futuro do peso dessas sombras que o tempo e a distância alimentaram. O perdão que você talvez busque não pode ser um esquecimento conveniente, mas uma construção árdua e sólida sobre a rocha da verdade.
Irmão, eu posso lhe esterder a mão, não para validar suas faltas para com minha pessoa, mas para convidá-lo a caminhar comigo fora do labirinto do engano. Que a realidade dos fatos não o assuste, mas o transforme, para que possamos, enfim, honrar com pureza o ventre que nos gerou e o amor sagrado que nos une.

O Tempo como Dimensão e Destino
Henrique, o que somos um para o outro neste exato momento? Pergunto isso porque cada instante que vivemos não se apaga, ele se torna parte da nossa estrutura. Tudo o que aconteceu é real e continua existindo. O passado não foi para lugar nenhum, ele apenas se acomodou em uma dimensão que ainda nos toca. O que diferencia o dia de hoje das sombras de outrora não é o tempo que passou, mas a nossa capacidade de entender que estamos acessando uma conexão entre o que fomos e o que somos agora. O passado não está em branco, e ignorá-lo é tentar apagar uma parte da nossa própria existência.
O tempo funciona de forma diferente para cada um de nós. O que para você parece distante, para mim é uma memória viva que se faz presente sempre que você se aproxima, pois surge o receio de novas decepções. Quando voltamos o pensamento ao que aconteceu, não estamos acessando algo que morreu, mas uma parte real da nossa história que serve de alerta. Por isso, diante dos danos causados, é improvável que exista um bem-querer genuíno agora, a menos que a sua consciência se transforme. Se você começar reconhecendo o erro e desejar sinceramente alterar esse fluxo, esse trabalho mental poderá limpar o seu estado atual e, só então, abrir caminho para que o perdão encontre solo para existir. Diante disso, você já se perguntou se o seu arrependimento busca apenas o alívio do seu próprio peso ou se ele nasce do desejo real de não me ferir mais? De que forma você pretende reconstruir o que foi quebrado, se o seu olhar ainda evita a verdade do que foi vivido? Você está disposto a deixar o orgulho de lado para permitir que uma nova consciência cure esta etapa de nossa existência?
Não tenho interesse em espantá-lo, mas precisamos encarar a verdade: o tempo é uma dimensão da vida, não um rastro que simplesmente desaparece. Se os eventos de ontem estão amarrados ao nosso presente, quais serão os resultados das escolhas que poderemos fazer hoje? Para mudar o horizonte, não basta desejar, é preciso entender que o passado não está morto, ele é o solo onde podemos pisar em qualquer memória real. É a partir dessa consciência que pergunto: o que podemos, de fato, transformar para que o futuro não seja apenas uma repetição do que já ficou gravado? Eu o convido a olhar para além do erro e escolher o caminho do bem e do perdão genuíno. Seria possível darmos esse passo juntos em direção a uma vida plena, onde a verdade nos liberte para um novo despertar?

O Alinhamento das Almas e o Despertar
Henrique, hoje compreendo que o meu verdadeiro caráter não se revela apenas no cumprimento das minhas obrigações, mas naquilo que eu busco quando sou livre para escolher o meu destino. Por muito tempo, eu me contentei com o lamaçal de escolhas pequenas e de atitudes que feriam, esquecendo-me de que fui criado para algo maior. Decidi, então, abandonar as sombras do homem que eu fui para buscar o ar puro das altitudes. Como ensina o profeta Isaías, eu escolhi esperar no Senhor para renovar as minhas forças e subir com asas como águia, pois entendi que não há dignidade para mim em permanecer onde a lama obscurecia a minha visão. Minha coragem hoje está em voar em direção à luz.
Não sinto nada mais poderoso em minha vida do que o testemunho da minha própria alma, que conheceu o peso do erro e, pela graça, foi conduzida à redenção. Para mim, o arrependimento não foi um sinal de fraqueza, mas a força que eu precisei para transformar o meu passado de falhas em uma missão de serviço e zelo. Por já ter estado perdido, hoje valorizo a retidão com um fervor que eu antes desconhecia. Trago em mim essa autoridade: a de quem não esconde as cicatrizes das tramas antigas, mas as usa como um lembrete do homem que eu jamais desejo voltar a ser. É sob essa minha nova perspectiva, purificada pela oração, que me apresento a você — como um irmão que descobriu que a minha maior liberdade é viver com as asas limpas.

O Encontro com o Criador
Henrique, aos nossos 61 e 62 anos, o entardecer da vida se aproxima e, com ele, a necessidade de estarmos leves para o nosso futuro encontro com o Criador. Para que possamos caminhar juntos novamente, acredito que o perdão precisa ser um caminho de mão dupla, sem pesos ou amarras. Por isso, de coração aberto, peço perdão pelas minhas incontáveis falhas ao longo dessa jornada; sei que sua vida foi dura e, em muitos momentos, eu poderia ter ajudado ainda mais. Do fundo da minha alma: me perdoe. Que possamos deixar para trás o que nos feriu e seguir adiante com a paz que só a verdadeira reconciliação pode proporcionar.
Mas insisto, irmão: para que eu possa me abrir novamente a você, o caminho exige um reconhecimento pleno de tudo o que vivemos e uma reparação concreta.
Irmão, já faz alguns anos que você me ligou e propôs uma reparação financeira; caso essa vontade ainda persista, eu a entenderei como a selagem de um compromisso com a retidão e com a dignidade que todos nós possuimos.
Ainda temos tempo de sermos felizes neste plano; nós merecemos essa paz, e a construção desse novo tempo depende exclusivamente de nossa disposição em agir com dignidade.
Como ensinado por Jesus: “Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta. Mateus 5:23–24”
Se não pudermos viver essa verdade aqui, que a eternidade resolva o que a vida não pôde ajustar.
Fique com Deus,
de seu irmão, Ricardo